domingo, 30 de junho de 2013

Ainda lembro o que passou
Eu você em qualquer lugar
Dizendo "aonde você for eu vou"
E quando eu perguntei
Ouvi você dizer
Que eu era tudo o que você sempre quis.
Mesmo triste eu tava feliz
E acabei acreditando em ilusões
Eu nem pensava em ter
Que esquecer você
Agora vem você dizer
"Amor, eu errei com você
E só assim pude entender
Que o grande mal que eu fiz
Foi a mim mesmo"
Vem você dizer
"Amor, eu não pude evitar"
E eu te dizendo
Liga o som
E apaga a luz

Voz: Marisa Monte e Ed Motta 
Composição: Nando Reis e Marisa Monte

sábado, 29 de junho de 2013

   A maior arma que alguém pode usar contra nós é nossa própria mente ao explorar dúvidas e incertezas que se escondem nela. Somos verdadeiros com nós mesmos ou vivemos pelas expectativas dos outros? E se formos acessíveis e sinceros, será que algum dia seremos amados?
   Podemos achar a coragem para liberar nossos segredos mais ocultos ou será que no fundo somos todos irreconhecíveis até para nós mesmos? 
   Confiar é muito difícil, seja achar a pessoa certa em quem confiar, ou confiar que a pessoa certa fará a coisa errada. Mas confiar seu coração é o maior risco de todos.
   No fundo, a única pessoa em que podemos realmente confiar, é em nós mesmos.

Um ano

    Um ano de beijos, abraços, sentimentos, confusões, desentendimentos , desconfianças, paixão, fogo, gelo, distâncias, reencontros, choros, dores, alegrias, declarações, risadas, xingamentos, brincadeiras, tapas, mordidas, sorrisos, olhares, pedidos, incertezas, certezas incertas, desejos, sonhos.
    Pode ter certeza que, apesar de desentendimentos, distância e tempo, sempre que puder vou te ajudar, te dar colo, o que você precisar e estiver ao meu alcance... ou além! E faço isso de coração, de alma, sem interesses a mais. Meu único interesse é te ver bem, sinceramente. Sempre vou estar por perto.
   Meus sentimentos não morrem, não se acabam, ainda mais por quem modificou e afetou tanto minha vida.
   Parece pouco, mas pra mim é muito. E até demais!
     Sempre vou lembrar de ti...
   Mesmo porque eu te amo... O tempo me trouxe esse sentimento, é inevitável!


29.06.12

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Veio até mim
Quem deixou
Me olhar assim
Não pediu
Minha permissão
Não pude evitar
Tirou meu ar
Fiquei sem chão...

Menino bonito
Menino bonito, ai!
Ai menino bonito
Menino bonito, ai!..

É tudo o que eu posso
Lhe adiantar
O que é um beijo
Se eu posso ter o teu olhar?
Cai na dança, cai!
Vem pra roda
Da malemolência...





domingo, 23 de junho de 2013

De onde vem a calma daquele cara?
Ele não sabe ser melhor, viu?
Como não entende de ser valente?
Ele não sabe ser mais viril
Ele não sabe não, viu?
Às vezes dá como um frio
É o mundo que anda hostil
O mundo todo é hostil

De onde vem o jeito tão sem defeito?
Que esse rapaz consegue fingir
Olha esse sorriso tão indeciso
Tá se exibindo pra solidão
Não vão embora daqui
Eu sou o que vocês são
Não solta da minha mão
Não solta da minha mão

Eu não vou mudar não
Eu vou ficar são
Mesmo se for só
Não vou ceder
Deus vai dar aval sim
O mal vai ter fim
E no final assim calado
Eu sei que vou ser coroado 
Rei de mim



                 LER COM PRAZER

                                              DESAFIO

                   Leia sem seguir referências ou tendências
   Quando criança, você foi ensinado que os clássicos devem ser cultuados. Já na fase adulta, teve que se acostumar com as intermináveis listas de referências bibliográficas acadêmicas e profissionais. E para completar, o mercado editorial dita, a todo momento, novas tendências literárias. Como encontrar prazer em meio a tudo isso? A resposta é simples: liberte-se! Escolha o livro que quer ler com base, unicamente, nos seus interesses, gostos e curiosidades.

                   Leia sem obrigações ou metas
   Na escola, você recebia uma lista obrigatória de livros e as datas das provas que avaliariam sua leitura. Assim, aprendeu a associar leitura somente à obrigação. Mas ler também pode ser sinônimo de prazer. Cada um tem o direito de ler no ritmo e na ordem que preferir: rápido ou lentamente, um livro por vez ou vários ao mesmo tempo, pular ou reler trechos, ler o final antes do começo, gostar de um livro ou mesmo abandoná-lo.

                  Leia sem se limitar a lugares ou situações
   Durante todos esses anos, você também aprendeu que leitura tem lugar determinado e hora certa. Mas ler é um ato que pode ser feito em qualquer lugar, dos tradicionais aos mais inusitados. A qualquer hora, todos os dias, nos finais de semana ou só quando sentir vontade.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Vandalismo?


O Brasil acordou. E acordou de um pesadelo longo, triste e cansativo.

As ruas estão tomadas. Os políticos sumiram. A Globo disfarça. O Jabor enche saco. A Band enche o saco. Os poderosos enchem o saco.

Pela primeira vez, nossos gritos não são de desespero pela corrupção, pelo abandono, pela miséria. Não, não. Desta vez, só desta vez, não.

Estes são gritos de coragem. Gritos cheios de vida. Uma vibração que estremece até o mais insensível e descrente. Um desabafo longo e doloroso que vai ecoar para sempre nos livros de história das próximas gerações.

Isto não é mais um pedido desesperado. Isto é uma ordem.

Eis a nossa descoberta:

Acabamos de descobrir que a ordem, aquela escrita na bandeira nacional, não tem nada a ver com organização.

A partir de agora, é o povo brasileiro que manda.

A partir de agora, esta é a nossa ordem.

A partir de agora, a voz de Deus será escutada nos 4 cantos do Brasil.

Não adianta se esconder, caro corrupto. Não adianta ir pra debaixo da cama, senhor governador. Não adianta dar futebol para o povo, excelentíssima presidenta. Nós não aceitamos mais nos contentar. Nós não vamos seguir mais este caminho de migalhas. Não tentem mais nos enganar. E parem de falar sobre vandalismo.

Nós não somos vândalos.

Vandalismo são as filas imensas nos hospitais e os corpos empilhados na vã esperança de atendimento.

Vandalismo é uma imprensa hipócrita acreditar, depois de todos os fatos, que pode passar a perna no povo mais uma vez.

Vandalismo é pegar buzu às 18 horas.

Vandalismo é sair de casa sem saber se vamos voltar.

Vandalismo é o Jornal Nacional.


Vandalismo é nossa educação. É nossa saúde. É nosso 


desemprego. É nossa vida.

Vandalismo é bala perdida. É favela perdida. É esperança perdida.

Os reais vândalos falam no horário político, usam gravatas e ternos caros.


Vândalo é o Datena. Vândalo é o Jabor. Vândalo é o Alckmin, o Paes, a Dilma, o Wagner, o Acm.

Eu não. Eles na rua não. Nós não.

O Brasil acordou, senhores políticos. E que fique claro uma única coisa:

Não é por 0,20 centavos.



É por amor.

Por: Bruno P.

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domingo, 16 de junho de 2013

A personalidade que ignora a si mesma realiza-se mais completamente.
      Um dia, depois de viver sem tédio muitos iguais, viu-se diferente de si mesma. Estava cansada. Andou de um lado para outro. Ela própria não sabia o que queria. Pôs-se a cantar baixinho, com a boca fechada. Depois cansou-se e passou a pensar em coisas. Mas não o conseguia inteiramente. Dentro de si algo tentava parar. Ficou esperando e nada vinha dela para ela. Vagarosamente entristeceu de uma tristeza insuficiente e por isso duplamente triste. Continuou a andar por vários dias e seus passos soavam como o cair de folhas mortas no chão. Ela mesma estava interiormente forrada de cinzento e nada enxergava em si senão um reflexo, como gotas esbranquiçadas a escorrerem, um reflexo de seu ritmo antigo, agora lento e grosso. Então soube que estava esgotada e pela primeira vez sofreu porque realmente dividira-se em duas, uma parte diante da outra, vigiando-a, desejando coisas que esta não podia mais dar. Na verdade ela sempre fora duas, a que sabia ligeiramente que era e a que era mesmo, profundamente. Apenas até então as duas trabalhavam em conjunto e se confundiam. Agora a que sabia que era trabalhava sozinha, o que significava que aquela mulher estava sendo infeliz e inteligente. Tentou num último esforço inventar alguma coisa, um pensamento, que a distraísse. Inútil. Ela só sabia viver.
      Até que a ausência de si mesma acabou por fazê-la cair dentro da noite e pacificada, escurecida e fresca, começou a morrer. Depois morreu docemente, como se fosse um fantasma. Não se sabe de mais nada porque ela morreu. Adivinha-se apenas que no fim ela também estava sendo feliz como uma coisa ou uma criatura podem ser. Porque ela nascera para o essencial, para viver ou morrer. E o intermediário era-lhe o sofrimento. Sua existência foi tão completa e tão ligada à verdade que provavelmente na hora de entregar-se e findar, teria pensado, se tivesse o hábito de pensar: eu nunca fui. Também não se sabe o que se fez dela. A uma vida tão bela deve ter-se seguido uma morte bela também. Certamente hoje é grãos de terra. Olha para cima, para o céu, durante todo o tempo. Às vezes chove, ela fica cheia e redonda nos seus grãos. Depois vai secando com o estio e qualquer vento a dispersa. Ela é eterna agora.
Uma vez dividiu-se, inquietou-se, passou a sair e a procurar-se. Foi a lugares onde se encontravam homens e mulheres. Todos disseram: felizmente despertou, a vida é curta, precisa-se aproveitar, antes ela era apagada, agora é que é gente. Ninguém sabia que ela estava sendo infeliz a ponto de precisar buscar a vida.
Ainda não se cansara de existir e bastava-se tanto que às vezes, de grande felicidade, sentia a tristeza cobri-la como a sombra de um manto, deixando-a fresa e silenciosa como um entardecer. Ela nada esperava. Ela era em si, o próprio fim.
Aconteciam-lhe coisas. Mas apenas vinham adensar ou enfraquecer o murmúrio do seu centro. Por que contar fatos e detalhes se nenhum a dominava afinal? E se ela era apenas a vida que corria em seu corpo sem cessar?

sábado, 15 de junho de 2013

Vou guardar os teu soluços mais delicados,
Teus olhos e teus casacos de fio.
Vou guardar os teu sorrisos apaixonados,
Teu jeitinho de me fazer sorrir, mesmo quando só faz frio.
Vou guardar os teus cabelos tão bagunçados,
À noitinha antes da gente ir dormir.
Vou guardar tuas vitórias e teus pecados
E as histórias que eu gostava de ouvir
Naquelas tardes de sol, nas manhãs de sol.
E eu vou guardar tuas manias e os teus errados,
Teus trejeitos e as covinhas ao rir.
Vou guardar os teus sossegos mais agitados,
Teu jeitinho de me fazer sorrir,
Mesmo quando não faz sol, não faz sol.
E quando eu não lembrar de mais nada,
Nem das rugas, nem dos anos,
Nem dos nomes e nem do frio,
Vou querer te contar
Como foi o meu dia
E passear,
Te dizer o que quero pro jantar.
Descansar
Desse dom
De viver só pras lembranças
Por não ter mais nada pra guardar,
Vou poder me sentar
E tomar um café a dois,
Pra nunca mais vivê-lo só depois.


Quero morrer agora, gritava alguma coisa dentro de mim liberta, mais do que sofrendo. Qualquer instante que sucedesse àquele seria mais baixo e vazio. Queria subir e só a morte, como um fim, me daria o auge sem a queda.
É preciso que eu não esqueça, pensei, que fui feliz, que estou sendo feliz mais do que se pode ser. Mas esqueci, sempre esqueci.
Tento isolar-me para encontrar a vida em si mesma. No entanto apoiei-me demais no jogo que distrai e consola e, quando dele me afasto, encontro-me bruscamente sem amparo. No momento em que fecho a porta atrás de mim, instantaneamente me desprendo das coisas. Tudo o que foi distancia-se de mim, mergulhando surdamente nas minhas água longínquas. Ouço-a, a queda. Alegre e plana espero por mim mesma, espero que lentamente me eleve e surja verdadeira diante de meus olhos. Em vez de me obter com a fuga, vejo-me desamparada, solitária, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas quietos. No meu interior encontro o silêncio procurado. Mas dele fico tão perdida de qualquer lembrança de algum ser humano e de mim mesma, que transformo essa impressão em certeza de solidão física. Se desse um grito - imagino já sem lucidez - minha voz receberia o eco igual e indiferente das paredes da terra. Sem viver coisas eu não encontrarei a vida, pois? Mas, mesmo assim, na solitude branca e limitada onde caio, ainda estou presa entre montanhas fechadas. Presa, presa. Onde está a imaginação? Ando sobre trilhos invisíveis. Prisão, liberdade. São essas as palavras que me ocorrem. No entanto não são as verdadeiras, únicas e insubstituíveis, sinto-o. Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome. - Sou pois um brinquedo a quem dão corda e que terminada esta não encontrará vida própria, mais profunda. Procurar tranquilamente, admitir que talvez só a encontre se for buscá-la nas fontes pequenas. Ou senão morrerei de sede. Talvez não tenha sido feita para as águas puras e largas, mas para as pequenas e de fácil acesso. E talvez meu desejo de outra fonte, essa ânsia que me dá ao rosto um ar de quem caça para se alimentar, talvez essa ânsia seja uma ideia - e nada mais. Porém - os raros instantes que às vezes consigo de suficiência, de vida cega, de alegria tão intensa e tão serena como o canto de um órgão - esses instantes não provam que sou capaz de satisfazer  minha busca e que esta é sede de todo o meu ser e não apenas uma ideia? Além do mais, a ideia é a verdade! grito-me. São raros os instantes.
Fascinada mergulho o corpo no fundo do poço, calo todas as suas fontes e sonâmbula sigo por outro caminho. - Analisar instante por instante, perceber o núcleo de cada coisa feita de tempo ou de espaço. Possuir cada momento, ligar a consciência a eles, como pequenos filamentos quase imperceptíveis mas fortes. É a vida? Mesmo assim ela me escaparia. Outro modo de captá-la seria viver. Mas o sonho é mais completo que a realidade esta me afoga na inconsciência. O que importa afinal: viver ou saber que está vivendo? - Palavras muitos puras, gotas de cristal. Sinto a forma brilhante e úmida debatendo-se dentro de mim. Mas onde está o que quero dizer, onde está o que devo dizer? Inspirai-me, eu tenho quase tudo; eu tenho o contorno à espera da essência; é isso? - O que deve fazer alguém que não sabe o que fazer de si? Utilizar-se como corpo e alma em proveito do corpo e da alma? Ou transformar sua força em força alheia? Ou esperar que de si mesma nasça, como uma consequência, a solução? Nada posso dizer ainda dentro da forma. Tudo o que possua está muito fundo dentro de mim. Um dia, depois de falar enfim, ainda terei do que viver? Ou tudo o que eu falasse estaria aquém e além da vida?  
Quando me surpreendo ao fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que sou recortada e definida. Sinto-me espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma. Quando me surpreendo ao espelho não me assusto porque me ache feia ou bonita. É que me descubro de outra qualidade. Depois de não me ver há muito quase esqueço que sou humana, esqueço meu passado e sou com a mesma libertação de fim e de consciência quanto uma coisa apenas viva. Também me surpreendo, os olhos abertos para o espelho pálido, de que haja tanta coisa em mim além do conhecido, tanta coisa sempre silenciosa.
Tudo. E essa palavra é paz, grave e incompreensível como um ritual.
Joana desviava a vista, vitoriosa, abaixava a cabeça numa alegria profunda que inexplicavelmente vinha misturada a um aperto doloroso na garganta, a uma impossibilidade de soluçar.
Mas ela caminhava para frente, sempre para a frente como se anda na praia, o vento alisando o rosto, levando para trás os cabelos.
A alegria cortou-lhe o coração, feroz, iluminou-lhe o corpo. Apertou a copo entre os dedos, bebeu água com os olhos fechados como se fosse vinho, sangrento e glorioso vinho, o sangue de Deus. Sim, a nenhum deles explicaria que tudo mudava lentamente... Que ela guardara o sorriso como quem apaga finalmente a lâmpada e resolve deitar-se. Agora as criaturas não eram admitidas no seu interior, nele fundindo-se.
Coisas que existem, outra que apenas estão... Surpreendeu-se com o pensamento novo, inesperado, que viveria dagora em diante como flores sobre o túmulo.
Na areia seus pés afundavam e emergiam de novo pesados. Já era noite, o mar rolava escuro, nervoso, as ondas mordiam-se na praia. O vento aninhara-se nos seus cabelos, fazia esvoaçar como louca a franja curta. Joana não sentia mais tontura, agora um braço bruto pesava sobre seu peito, um peso bom. Alguma coisa virá em breve, pensou depressa. Era a segunda vertigem num só dia! De manhã, ao saltar da cama, e agora... Estou cada vez mais viva, soube vagamente. Começou a correr. Estava subitamente mais livre, com mais raiva de tudo, sentiu triunfante. No entanto não era raiva, mas amor. Amor tão forte que só esgotava sua paixão na força do ódio. Agora sou uma víbora sozinha.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

É como uma vontade de respirar muito, mas também o medo... Não sei... Não sei, quase dói. É tudo... É tudo.
Margarida a Violeta conhecia,
uma era cega, uma bem louca vivia,
a cega sabia o que a doida dizia
e terminou vendo o que ninguém mais via...
Certos momentos da música. A música era da categoria do pensamento, ambos vibravam no mesmo movimento e espécie. Da mesma qualidade do pensamento tão íntimo que ao ouvi-la, este se revelava. Do pensamento tão íntimo que ouvindo alguém repetir as ligeiras nuances dos sons, Joana se surpreendia como se fora invadida e espalhada. Deixava até de sentir a harmonia quando esta se popularizava - então não era mais sua. Ou mesmo quando a escutava várias vezes, o que destruía a semelhança: porque seu pensamento jamais se repetia, enquanto a música podia se renovar igual a si própria - o pensamento só era igual a música se criando. Joana não se identificava profundamente com todos os sons. Só com aqueles puros, onde o que amava não era trágico nem cômico.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

A imaginação apreendia e possuía o futuro do presente, enquanto o corpo restava no começo do caminho, vivendo outro ritmo, cego à experiência do espírito...
Sem se conter mais, a cólera e a repugnância subiram-lhe em vagas violentas e inclinada para a cavidade entre as rochas vomitou, os olhos fechados, o corpo doloroso e vingativo.
Mas quando a madrugada clareou o quarto docemente, as coisas saíram frescas das sombras, ela sentiu a nova manhã insinuando-se entre os lençóis e abriu os olhos. Sentou-se sobre a cama. Dentro de si era como se não houvesse a morte, como se o amor pudesse fundi-la, como se a eternidade fosse a renovação.
O que eu ainda agora queria saber, dava tudo para saber, é o que ela tanto pensava.
Tu não imaginas sequer: nunca vi alguém ter tanta raiva das pessoas, mas raiva sincera e desprezo também. E ser ao mesmo tempo tão boa... secamente boa. Ou estou errado? Eu é que não gostava daquele tipo de bondade: como se risse da gente. Mas me acostumei. Ela não precisava de mim.
E num momento de angústia, dentre tantos amigos - e mesmo você, que eu não sabia por onde andava - nesse momento pensava nela.
O cansaço rastejando no seu corpo, a lucidez fugindo ao polvo. Sonhos esgarçados, inícios de visões. [...]. E, de repente, toda a lassidão da espera concentrando-se num movimento nervoso e rápido do corpo, o grito mudo. Frio depois, e sono.
Toda a sua vida fora um erro, ela era fútil.
Ninguém em casa. E de tal modo, ninguém dentro de si mesma que podia ter os pensamentos mais desligados da realidade, se quisesse.
Quis o mar e sentiu os lençóis da cama. O dia prosseguiu e deixou-a atrás, sozinha.
Ainda não se libertara do desejo-poder-milagre, desde pequena. A fórmula se realizava tantas vezes: sentir a coisa sem possuí-la.
Mas estou cansada, apesar de minha alegria de hoje, alegria que não se sabe de onde vem, como a da manhãzinha de verão. Estou cansada, agora agudamente! Vamos chorar juntos, baixinho. Por ter sofrido e continuar tão docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada.
Mas, sobretudo, donde vem essa certeza de estar vivendo? Não, não passo bem. Pois ninguém se faz essas perguntas e eu... Mas é que basta silenciar para só enxergar, abaixo de todas as realidades, a única irredutível, a da existência.
Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação.
... a única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais.
Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações. 
Sim, ela sentia dentro de si um animal perfeito. Repugnava-lhe deixar um dia esse animal solto. Por medo talvez da falta de estética. Ou receio de alguma revelação... Não, não, - repetia-se ela - é preciso não ter medo de criar. No fundo de tudo possivelmente o animal repugnava-lhe porque ainda havia nela o desejo de agradar e de ser amada por alguém poderoso como a tia morta. Para depois no entanto pisá-la, repudiá-la sem contemplações.
•  UMA DEFINIÇÃO NÃO ENCONTRADA  •
NO DICIONÁRIO
Não ir embora: ato de confiança e amor,
comumente decifrado pelas crianças.
• UM ANÚNCIO TRANQUILIZADOR •
Por favor, mantenha a calma, apesar da ameaça anterior.
Sou só garganta...
Não sou violenta.
Não sou maldosa.
Sou um resultado.
                                                  • EIS UM PEQUENO FATO •
                                                           Você vai morrer.

      Com absoluta sinceridade, tento ser otimista a respeito de todo esse assunto, embora a maioria das pessoas sinta-se impedida de acreditar em mim, sejam quais forem meus protestos. Por favor, confie em mim. Decididamente, eu sei ser animada, sei ser amável. Agradável. Afável. E esses são apenas os As. Só não me peça para ser simpática. Simpatia não tem nada a ver comigo.

                                         • REAÇÃO AO FATO SUPRACITADO •
                                                        Isso preocupa você?
                                                     Insisto - não tenha medo.
                                                     Sou tudo, menos injusta.

Olhei para dentro de mim
Para ver quem sou eu
Vi tantas caras estranhas, máscaras 
No fundo de minhas entranhas 
Qual sou eu?... Quem sou eu?

Não me vi, mas segui
Tentando encontrar o meu eu
Guardado no tempo, perdido no agora
Não sei se está dentro, não sei se está fora
Não sei por que eu... não sei quem sou eu
No teatro da vida, verdade ou mentira,
Interpreto meu ato assistindo você
Travestidos de fatos e pura emoção
Nesta peça sem começo nem fim
E o elenco do mundo
Crescendo, dentro de mim

No teatro da vida
Somos tantos, tão sós
Somos todos platéia e palco
Vivendo e assistindo a fantasias sem fim
Já não sei se sou um; já não sei se sou nós...
Não sei por que vim, não sei...
Qual sou eu?... Quem sou eu?...

Voltei para dentro de mim
Para ver quem sou eu...
Apontaram-me tantas caras estranhas
Máscaras nas minhas entranhas
Qual sou eu... Quem sou eu.
Qual Quem sou eu?...

 E de repente, bate um vento, mas você o sente como se fosse uma ventania, daquelas pré-tempestades que derrubam e destroem. Você sente aquilo te corroendo, te derrubando, te matando por dentro, mas também por fora, sobre sua pele... e é ai que você percebe que não é tão forte quanto pensava, ou melhor, como fizeram você acreditar que era. E aquela vida inteira de julgamento e desprezo contra si próprio faz sentido. Então, quando você se dá conta, já está jogado no chão cercado de sangue. Mas, mesmo assim, você sabe que todo esse tempo tentando melhorar valeu a pena sim e não foi à toa, só que chegou uma hora que você se tocou de que esse mundo errado, frio e assustador não era pra você.
O amor...
Desvendá-lo é assassiná-lo.
Só podemos senti-lo,
Jamais compreende-lo.
Quando se ama, não se está pensando em segurança, duração, controle, posse, pois isso corresponde à forma com que o autoritarismo capitalista familiar ou de estado se expressa no plano  pessoal e afetivo. Se eu sou um libertário, desejo que tanto eu quanto o meu parceiro vivamos o amor em liberdade, na emoção, no espaço e no tempo. É o amor em si mesmo que comanda a intensidade, a beleza, a forma e a duração do nosso amor, em cada um e entre os dois, jamais o contrário.
Quando o amor acaba por ele mesmo, suas reações à perda não chegam nunca ao desespero trágico.
Tinha medo de me entregar totalmente ao amor porque isso me fazia parecer frágil, vulnerável, sensível demais, facilmente dominável e usável. Sobretudo, eu tinha vergonha de parecer romântico, sei lá por quê. Assim, toda vez que me apaixonava, ficava romântico e isso me enchia da sensação do ridículo.


Em minha inocência e ignorância, eu atribuía a algumas pessoas o poder de liberar, produzir, fazer exercer-se e se comunicar o amor em mim e de mim. Esse amor pertencia, pois, exclusivamente a essas pessoas, ficando eu delas dependente para sempre. Se, por alguma razão, me deixassem ou não quisessem mais produzi-lo em mim, eu secava de amor e - o que é pior - ficava em seu lugar, na pessoa e no corpo, uma sangrenta ferida, como a de uma amputação, que não cicatriza jamais.
Sei que a dificuldade para a realização plena do amor entra as pessoas não é um problema do amor em si, mas do ambiente social, dos preconceitos, do moralismo laico ou religioso, do autoritarismo, da luta de classes, dos interesses econômicos e políticos.