terça-feira, 30 de julho de 2013

Joana sorria, mas não podia evitar que o sofrimento começasse a lhe palpitar em todo o corpo, como uma sede amarga. Mais que sofrimento, um desejo de amor crescendo e dominando-a. Dentro de um vago e leve turbilhão, como uma rápida vertigem, veio-lhe a consciência do mundo, de sua própria vida, do passado aquém de seu nascimento, do futuro além de seu corpo. Sim, perdida como um ponto, um ponto sem dimensões, uma vez, um pensamento. Ela nascera, ela morreria, a terra... Veloz, profunda a sensação: um mergulho cego numa cor - vermelha, serena e larga como um campo. A mesma consciência violenta e instantânea que a assaltava às vezes nos grandes instantes de amor, como a um afogado que vê pela última vez.
Então nasceu-lhe uma ideia. Uma ideia tão quente que o coração acompanhou-a com pancadas fortes. Assim: aproximou-se dele, aninhou com cuidado a cabeça no seu braço, junto de seu peito. Ficou parada, à espera. Aos poucos sentiu o calor do estranho transmitindo-se a ela mesma pela nuca. Ouviu o bater ritmado, longínquo e sério de um coração. Perscrutou-se atenta. Aquele ser vivo era seu. Aquele desconhecido, aquele outro mundo era seu. Via-o de longe, do alto da lâmpada, o corpo nu - perdido e fraco. Fraco. Como eram frágeis e delicadas suas linhas descobertas, sem proteção. Ele, ele, o homem. De uma fonte oculta veio-lhe subindo pelo corpo a angústia, enchendo-lhe todas as células, empurrando-a desamparada para o fundo da cama. Meu Deus, meu Deus. Depois, num parto doloroso, sob a respiração difícil, sentiu o óleo macio da renúncia derramar-se dentro de si, enfim, enfim. Ele era seu.
E subitamente, traiçoeiramente, teve um medo real, tão vivo como as coisas vivas.
Retirou-se depressa, encolheu-se dentro de si mesma, cheia de medo, daquele temor inconfessado das antigas noites sem chuva, na escuridão sem sono. Quantas vezes terei que viver as mesmas coisas em situações diversas?
- Mas eu faço mais do que te compreender, disse ela apressada, eu te amo...
Olhava-o sem prestar atenção às suas palavras. Era doce e bom saber que entre ambos havia segredos tecendo uma vida fina e leve sobre a outra vida, a real. Ninguém adivinharia jamais que Otávio a beijara nas pálpebras uma vez, que ele sentira nos lábios os seus cílios e que sorrira por isso. E milagrosamente ela compreendera tudo sem que falassem. Ninguém saberia que um dia tinham se querido tanto que haviam permanecido mudos, sérios, parados. Dentro de cada um deles acumulavam-se conhecimentos nunca devassados por estranhos. Ele fora embora um dia. Mas não importava tanto. Ela sabia que entre os dois havia ''segredos'', que ambos eram irremediavelmente cúmplices. Se fosse embora, se amasse outra mulher, iria embora e amaria outra mulher para participar-lhe depois, mesmo que nada lhe contasse. Lídia tomaria parte na sua vida de qualquer modo. Certas coisas não acontecem sem consequência, pensava olhando-o. Que se fuja - e nunca se estará livre... Uma vez ia caindo, ele amparou-a, endireitou seu cabelo num gesto distraído. Ela agradeceu-lhe com uma ligeira pressão no braço. Olharam-se com um sorriso e de repente sentiram-se ofuscantemente felizes... Puseram-se a andar mais depressa, os olhos abertos deslumbrados.
Talvez ele não se lembrasse disso particularmente. Ela é quem tinha a memória para aquelas coisas. Verdade é que a qualidade desses acontecimentos era tal, que não se podia rememorá-los falando. Nem mesmo pensando com palavras. Só parando um instante e sentindo de novo. Que ele esquecesse. Na sua alma, porém, restaria certamente qualquer marca, clara, cor-de-rosa, anotando a sensação e aquela tarde. Quanto a ela - cada dia que chagava trazia-lhe nas suas águas mais lembranças de que se alimentar. E aos poucos uma certeza de felicidade, de fim alcançado, subia-lhe vagarosa pelo corpo, deixando-a satisfeita, quase saciada, quase angustiada. 
Sua feiura não a excitava, não lhe causava pena. Simplesmente ligava-se mais a ele e com maior alegria. Alegria de aceitar inteiramente, de sentir que unia o que havia de verdadeiro e primitivo em si a alguém, independente de qualquer das ideias recebidas sobre beleza. 
Mas afinal de nada tenho culpa, disse. Nem de ter nascido. E de repente não compreendeu como pudera acreditar em responsabilidade, sentir aquele peso constante, todas as horas. Ele era livre... Como tudo se simplifica às vezes...

terça-feira, 23 de julho de 2013

   - Não quero que você me deixe...
   - Ah...
   - ... mas não tenho medo...
    Olhara-a espantado. Estava emagrecendo, notou. Mas o aspecto saudável ainda. Apesar de tudo mais nervosa, facilidade para chorar, para comover-se. De repente pusera-se a rir.
   - Não sei de que você é feita, juro.
Evocou-a e, furtando-se aos seus olhos, viu-a nos seus momentos de distração, o rosto branco, vago e leve. E de repente grande melancolia desceu sobre ele. Que estou fazendo afinal? - perguntou-se e nem sabia por quê se agredira tão subitamente.

Eu não pertenço à esse mundo!

E de repente, bate um vento, mas você o sente como se fosse uma ventania, daquelas pré-tempestades que derrubam e destroem. Você sente aquilo te corroendo, te derrubando, te matando por dentro, mas também por fora, sobre sua pele... e é ai que você percebe que não é tão forte quanto pensava, ou melhor, como fizeram você acreditar que era. E aquela vida inteira de julgamento e desprezo contra si próprio faz sentido. Então, quando você se dá conta, já está jogado no chão cercado de sangue. Mas, mesmo assim, você sabe que todo esse tempo tentando melhorar valeu a pena sim e não foi à toa, só que chegou uma hora que você se tocou de que esse mundo errado, frio e assustador não era pra você.
Joana pensava sem medo e sem castigo. Teria a loucura por fim ou o quê? Não podia adivinhar. Talvez sofrimento apenas.
De tal modo a imaginação é a base do homem, que todo o mundo que ele tem construído encontra sua justificativa na beleza da criação e não na sua utilidade, não em ser o resultado de um plano de fins adequados às necessidades. Por isso é que vemos multiplicarem-se os remédios destinados a unir o homem às ideias e instituições existentes - a educação, por exemplo, tão difícil - e vemos-lo continuar sempre fora do mundo que ele construiu. O homem levanta casas para olhar e não para nelas morar. Porque tudo segue o caminho da inspiração. O determinismo não é um determinismo de fins, mas um estreito determinismo de causas. Brincar, inventar, seguir a formiga até seu formigueiro, misturar água com cal para ver o resultado, eis o que se faz quando se é pequeno e quando se é grande. É erro considerar que chegamos a um alto grau de pragmatismo e materialismo. Na verdade o pragmatismo - o plano orientado para um dado fim real - seria a compreensão, a estabilidade, a felicidade, a maior vitória de adaptação que o homem conseguisse. No entanto, fazer as coisas ''para quê'' parece-me, perante a realidade, uma perfeição impossível de se exigir do homem. O início de toda sua construção é ''porquê''. A curiosidade, o devaneio, a imaginação - eis o que formou o mundo moderno. Seguindo a inspiração, misturou ingredientes, criou combinações. Sua tragédia: ter que se alimentar com elas. Confiou em que pudesse imaginar numa vida e encontrar-se noutra, aparte. De fato essa outra continua, mas sua purificação sobre o imaginado age lentamente e um homem sozinho não encontra o pensamento tonto de um lado e a paz da vida verdadeira noutro. Não se pode pensar impunemente. 
A tragédia moderna é a procura vã de adaptação do homem ao estado de coisas que ele criou.
Agora são exatamente sete e pouco da manhã. Há névoas lá fora, além da janela, da Janela Aberta, o grande símbolo. Joana diria: eu me sinto tão dentro do mundo que me parece não estar pensando, mas usando de uma nova modalidade de respirar. Adeus. Isso é o mundo, eu sou eu, está chovendo no mundo, é mentira, eu sou um trabalhador intelectual, Joana dorme no quarto, alguém deve estar acordando agora, Joana diria: outro morrendo, outro ouvindo música, alguém entrou num banheiro, isto é o mundo.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Chorei. 
Chorei porque aparentemente não havia uma solução. Chorei porque eu era a única pessoa que poderia fazer alguma coisa, mas não pude. Chorei porque eu estava com tanta saudade que não sabia onde eu estava. Chorei porque nenhum porre desse mundo poderia me impedir de chorar. Chorei por todas as coisas que tive de abrir mão, por todas as pessoas que abriram mão de mim. Chorei porque era tudo que eu poderia fazer, chorar como uma criança desesperada. Chorei pelo cansaço, pelas dores nas costas, pela falta de alimento no estômago, chorei porque acreditava em tudo, e hoje já não havia mais nada para acreditar. Chorei porque eu estava em todos os lugares, mas, nenhum deles era o meu lar.
A gente é certo um pro outro, mas é errado pra ficar junto. A gente não se merece, não combina. Mas, sei lá, não parece certo ficar separado. Do mesmo jeito que parece totalmente errado ficar junto. Tem tudo pra dar certo. Mas é que a gente só sabe fazer dar errado.
Ninguém ligou, ninguém vai ligar. O visor do telefone não acusa uma mensagem perdida. E-mail, sinal de fumaça, uma chamada não-atendida. A tela da tv não parece uma saída. Eu vivo um refrão antigo, feito às pressas, plágio de uma bela melodia. Eu vivo um sonho toda noite, eu vivo a noite todo dia. O que eu não pude prever, o que eu não queria. E quando eu ver tv, vou ter sempre uma chance de lembrar.
Eu entendo que você não queria mais ficar. Entendo mesmo. Como você disse, um dias as rotas mudam, e os planos também. Um dia o sol brilha diferente, e se a gente não mudar com ele, ao invés de aquecer ele vai queimar. Eu só não queria. De todas as despedidas, e desapegos, e partidas, vai por mim, a sua vai ser a mais doída. Mas eu acostumo, fica tranquilo. Eu mesmo me abraço quando estiver em um dia ruim. Isso não é novidade pra mim. Mas agora… Não me entenda grosseiro, mas acho que já deve partir. Se tem que ir vá logo, não fica tentando se explicar ou arrumar desculpas, porque isso só abre a ferida. Vai, e não olha pra trás. Aqui, ou ali, aonde eu estiver, eu vou saber que você fez o inverso de mim. Você fez o que a vida inteira eu não tive coragem de fazer; você foi ser feliz, ao invés de esperar a felicidade te encontrar.
Não me façam feliz. Por favor, não me saciem nem me deixem pensar que alguma coisa boa pode sair disso. Olhem para meus machucados. Olhem para este arranhão. Estão vendo esse arranhão dentro de mim? Estão vendo ele crescer bem diante dos seus olhos, me corroendo? Não quero ter a esperança de mais nada.
Essa garota precisa de alguém com tempo e com todo o coração do mundo pra entender a alma dela.
E apesar de rir e fingir que não me importo, eu me importo sim. Tem dias que gostaria de ser diferente, mas isso é impossível. Estou presa ao caráter com qual nasci, e mesmo assim tenho certeza de que não sou má pessoa. Faço o máximo para agradar a todos, mais do que eles suspeitariam num milhão de anos.
Virou as costas
e foi embora,
com ar de quem queria ficar.
Ela esqueceu que não podia voar. Pulou da janela num dia de sol. 
Ninguém entende a garota louca. Ninguém á escuta. Não importa o quanto ela grite que dói, eles ignoram. Continuam furando e espetando seu corpo com agulhas de desapontamento. Ela não era louca. Ela só estava com medo. Ninguém viu que ela pulou porque estava fugindo. Fugindo do reflexo no espelho.
Ela ama, mas qualquer tipo de amor a sufoca.
Mesmo que o dia tenha sido bom, quando chega em casa ela se sente vazia. Seus pensamentos estão tão embaralhados que ela chora porque não consegue pensar em nada. Todos dizem que ela não está sozinha, mas não é isso que ela sente quando deita a cabeça no travesseiro. Os médicos dizem que não há problema algum com a pequena garota. Eles tem razão. Não tem nada de errado com ela por fora, nem por dentro. O problema não está no corpo, está na mente dela. Ela está enlouquecendo.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O capítulo sobre o amor da enciclopédia galáctica diz que é muito complicado o defini-lo. Já o Guia do Mochileiro das Galáxias diz o seguinte sobre o amor: evite se possível. Infelizmente Arthur Dent nunca leu o Guia.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Porque amor é amor, não adianta, como paixão é paixão. São coisas distintas caso você não saiba. Eu sei a diferença, eu sinto ela. Não venha me pedir explicações. Não as devo, aliás, não as tenho por completo. Não mesmo. O amor eu sinto intensamente. A paixão você sente. E se for o contrário? Não, não acredito nesse papo. Me conheço, mas acho que não te conheço tanto assim. E se com você também for amor? Ah, sei lá, essa é uma dúvida. Ou melhor: uma delas. São tantas as dúvidas. Eu sou confusa, você é indecisa. E vice-versa também. E não venha me dizer que não, porque eu sei que sim. Como o amor também é, por isso é tão difícil de identifica-lo, ainda mais nos dias de hoje. As pessoas hoje são tão tolas.... e por que? Não sei, não sei... Viu? Mais uma dúvida pra coleção. Acredito que a vida é baseada em dúvidas. Quem não as tem? Difícil. Ela está em tudo. Isso é triste, mas estou aprendendo a conviver com ela. Mas você às vezes me parece ser pior que ela. Você é ela em pessoa! Não negue isso, você transborda dúvidas, e em todos os sentidos. Eu também, eu sei, não precisa me falar. Eu sei o que sou, mas não completamente o que é você. Te definiria como um ponto de interrogação. Aliás, o mundo. Tudo. Eu. Aaah, a vida me cansa. Você me cansa. Mas não, não quis dizer com essa suposta comparação que você é a vida, a minha vida. Não é. Talvez um dia se torne. Duvido. E ai está ela mais uma vez, a dúvida. Como ela me cansa, como você me cansa, esse suposto texto está me cansando também, ele não tem pé nem cabeça, está sem sentido, eu sei, mas o que tem sentido? Pouca coisa, eu acho. Ele não precisa de sentido... você precisa de sentido e não tem, por que ele teria? Injustiça. Não foi feito pra ser entendido, mas você o vai fazer, você vai entender. Você entende o que eu digo, apenas ignora. Não sei o por quê também de ter feito esse ''texto''. Falta do que fazer eu acho. Cabeça cheia. Cabeça cheia de você. Cabeça cheia da vida. (Não se engane novamente). Cabeça cheia de tudo. Não. Não quero mais. Termino aqui. Foda-se. Adeus.

domingo, 14 de julho de 2013

Assim, assim, não fuja: ''o quê? ainda estás viva? ainda não morreste?'' Sim, sim, foi isso, não fugir de mim, não fugir de minha letra, como é leve e horrível, teia de aranha, não fugir de meus defeitos, meus defeitos, eu vos adoro, minhas qualidades são tão pequenas, iguais às dos outros homens, meus defeitos, meu lado negativo é belo e côncavo como um abismo. O que não sou deixaria um buraco enorme na terra. Eu não agasalho meus erros, enquanto Joana não erra, eis a diferença.
       ''É necessário certo grau de cegueira para poder enxergar determinadas coisas. É essa talvez a marca do artista. Qualquer homem pode saber mais do que ele e raciocinar com segurança, segundo a verdade. Mas exatamente aquelas coisas escapam à luz acesa. Na escuridão tornam-se fosforescentes''.
       ''Não é o grau que separa a inteligência do gênio, mas a qualidade. O gênio não é tanto uma questão de poder intelectivo, mas da forma por que se apresenta esse poder. Pode-se assim ser facilmente mais inteligente que um gênio. Mas o gênio é ele. Infantil esse 'o gênio é ele'. Ver em relação a Spinoza, se se pode aplicar a descoberta''.
        Era dele mesmo? Toda a ideia que lhe surgia, porque se familiarizava com ela em segundos, vinha com o temor de tê-la roubado.
   A tortura de um homem forte é maior que a de um doente.
   O doente imagina o mundo e o são o possui. O doente pensa que não pode apenas pela sua doença e o forte sente inútil sua força.
   Por isso a poesia dos poetas que sofreram é doce, terna.  E a dos outros, dos que de nada foram privados, é ardente, sofredora e rebelde.
As coisas principais assaltavam-na em quaisquer momentos, também nos vazios, enchendo-os de significados.
Teve saudades da sensação, necessidade de sentir de novo. Olhou ansiosa de um lado para outro, procurando alguma coisa. Mas tudo ali era como era há muito. Velho.
   Era sempre inútil ter sido feliz ou infeliz. E mesmo ter amado. Nenhuma felicidade ou infelicidade tinha sido tão forte que tivesse transformado os elementos de sua matéria, dando-lhe um caminho único, como deve ser o verdadeiro caminho. Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado. Por que tão independentes, por que não se fundem num só bloco, servindo-me de lastro? É que eram demasiado integrais. Momentos tão intensos, vermelhos, condensados neles mesmos que não precisavam de passado nem de futuro para existir. Traziam um conhecimento que não servia como experiência - um conhecimento direto, mais como sensação do que percepção. A verdade então descoberta era tão verdade que não podia subsistir senão no seu recipiente, no próprio fato que a provocara. Tão verdadeira, tão fatal, que vive apenas em função de sua matriz. Uma vez terminado o momento de vida, a verdade correspondente também se esgota. Não posso moldá-la, fazê-la inspirar outros instantes iguais. Nada pois me compromete.
   No entanto a justificação de sua curta glória talvez não tivesse outro valor senão o de lhe dar certo prazer de raciocínio, assim como: se uma pedra cai, essa pedra existe, essa pedra caiu de um lugar, essa pedra... Ela errava tanto.
Só não se habituara a dormir. Dormir era cada noite uma aventura, cair da claridade fácil em que se vivia para o mesmo mistério, sombrio e fresco, atravessar a escuridão. Morrer e renascer.
Os dias foram correndo e ela desejava achar-se mais. Chamava-se agora fortemente e não lhe bastava respirar. A felicidade apagava-a, apagava-a... Já queria sentir-se de novo, mesmo com dor. Mas submergia cada vez mais. Amanhã, adiava, amanhã vou-me ver. O novo dia porém perpassava pela sua superfície, leve como uma tarde de estio, mal franzindo seus nervos.
O que sucedia então? Milagrosamente vivia, liberta de todas as lembranças. Todo o passado se esfumaçara. E também o presente eram névoas, as doces e frescas névoas separando-a da realidade sólida, impedindo-a de tocá-la. Se rezasse, se pensasse seria para agradecer ter um corpo feito para o amor. A única verdade tornou-se aquela brandura onde mergulhara. Seu rosto era leve e impreciso, boiando entre os outros rostos opacos e seguros, como se ele ainda não pudesse adquirir apoio em qualquer expressão. Todo o seu corpo e sua alma perdiam os limites, misturavam-se, fundiam-se num só caos, suave e amorfo, lento de movimentos vagos como matéria simplesmente viva. Era a renovação perfeita, a criação.
Erguia-se para uma nova manhã, docemente viva. E sua felicidade era pura como o reflexo do sol na água. Cada acontecimento vibrava em seu corpo como pequenas agulhas de cristal que se espedaçassem. Depois dos momentos curtos e profundos vivia com serenidade durante largo tempo, compreendendo, recebendo, resignando-se a tudo. 
    A plenitude tornou-se dolorosa e pesada e Joana era uma nuvem prestes a chover. Respirava mal como se dentro dela não houvesse lugar para o ar. Caminhou de um lado para o outro, perplexa com a mudança. Como? - perguntava-se e sentia que estava sendo ingênua, aquilo tinha dois lados? Sofrer pelo mesmo motivo que a tornara terrivelmente feliz?
    Carregou consigo o corpo doente, um ferido incômodo, durante os dias. A leveza fora substituída por miséria e cansaço. Saciada - um animal que matara sua sede inundando seu corpo d'água. Mas ansiosa e infeliz como se apesar de tudo restassem terras ainda não molhadas, áridas e sedentas. Sofreu sobretudo de incompreensão, sozinha, atônita. Até que encostando a testa, no vidro da janela - rua quieta, a tarde caindo, o mundo lá fora -, sentiu o rosto molhado. Chorou livremente, como se esta fosse a solução. As lágrimas corriam grossas, sem que ela contraísse um só músculo da face. Chorou tanto que não soube contar. Sentiu-se depois como se tivesse voltado às suas verdadeiras proporções, miúda, murcha, humilde. Serenamente vazia. Estava pronta.
    Procurou-o então. E a nova glória e o novo sofrimento foram mais intensos e de qualidade mais insuportável.
   No quarto, já despida sobre a cama, não conseguia adormecer. Seu corpo pesava-lhe, existia além dela mesma como um estranho. Sentia-o palpitante, aceso. Fechou a luz e os olhos, tentou fugir, dormir. Mas continuou por longas horas a perscrutar-se, a vigiar o sangue que se arrastava grosso pelas suas veias como um animal bêbado. E a pensar. Como não se conhecia até então. Aquelas formas finas e ligeiras, aquelas linhas delicadas de adolescente. Abriam-se, respiravam sufocadas e cheias de si mesmas até o limite.
   De madrugada a viração alisou a cama, acenou as cortinas. Joana foi serenando suavemente. A frescura do fim da noite acariciou-lhe o corpo dolorido. O cansaço tomou-o devagar e de repente exausta entregou-se a um sono profundo.
Quando Otávio a beijara, segurara-lhe as mãos, apertando-as contra seus seio, Joana mordera os lábios a princípio cheia de raiva porque ainda não sabia com que pensamento vestir aquela sensação violenta, como um grito, que lhe subia do peito até entontecer a cabeça. Olhou-o sem vê-lo, os olhos nublados, o corpo sofredor. Precisavam despedir-se. Afastou-se bruscamente e foi embora sem se voltar para trás, sem saudade.
    Sobretudo no momento em que a tocara, compreendera: o que se seguisse entre eles seria irremediável. Porque quando a abraçara, sentira-a viver subitamente em seus braços como água correndo. E vendo-a tão viva, entendera esmagado e secretamente contente que se ela o quisesse ele nada poderia fazer... No momento em que finalmente a beijara sentira-se ele próprio de repente livre, perdoado além do que ele sabia de si mesmo, perdoado no que estava sob tudo o que ele era...
    Daí em diante não havia escolha. Caíra vertiginosamente de Lídia para Joana. Sabendo disso ajudava-se a amá-la. Não era difícil. Uma vez ela se distraíra olhando pelo vidro da janela, os lábios soltos, esquecida de si mesma. Ele a chamara e o modo suave e abandonado como ela voltava a cabeça e dissera: hein?... fizera-o cair dentro de si mesmo, mergulhando numa tonta e escura onda de amor.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A distância que separa os sentimentos das palavras. Já pensei nisso. E o mais curioso é que no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é, seguramente, o que eu sinto mas o que eu digo.
Mas agora ela falava também porque não sabia dar-se e porque sobretudo apenas pressentia, sem entender, que Otávio poderia abraçá-la e dar-lhe paz.
    Só depois de viver mais ou melhor, conseguirei a desvalorização do humano, dizia-lhe Joana às vezes. Humano - eu. Humano - os homens individualmente separados. Esquecê-los porque com eles minhas relações apensa podem ser sentimentais. Se eu os procuro, exijo ou dou-lhes o equivalente das velhas palavras que sempre ouvimos, ''fraternidade'', ''justiça''. Se elas tivessem um valor real, seu valor não estaria em ser cume, mas base de triângulo. Seriam a condição e não o fato em si. Porém terminam ocupando todo o espaço mental e sentimental exatamente porque são impossíveis de se realizar, são contra a natureza. São fatais, apesar de tudo no estado de promiscuidade em que se vive. Nesse estado transforma-se o ódio em amor, que nunca passa na verdade de procura de amor, jamais obtido senão em teoria, como no cristianismo.
    É difícil tal desvalorização do humano, difícil fugir dessa atmosfera de fracasso de revolução - a adolescência -, de solidariedade com os homens na mesma impotência de conseguir. No entanto como seria bom construir alguma coisa pura, liberta do falso amor sublimizado, liberta do medo de não amar... Medo de não amar, pior do que o medo de não ser amado...
Bastava sua presença, apenas pressentida, para toda ela anular-se e ficar à espera. À noite, sozinha no quarto, queria-o. Todos os seus nervos, todos os seus músculos doentes. Resignou-se pois. A resignação era doce e fresca. Nascera para ela.
Inútil seguir por outros caminhos, quando para um só seus passos a guiavam. Mesmo quando ele a feria, ela se refugiava nele contra ele. Ela era tão fraca. Em vez de sofrer ao reconhecer sua fraqueza, alegrava-se: sabia vagamente, sem se explicar, que desta é que vinha o seu apoio para Otávio. Sentia que ele sofria, que escondia alguma coisa viva e doente na sua alma e que ela só poderia ajudá-lo usando de toda a passividade que dormia em seu ser.
Novamente, no meio do raciocínio inútil, veio-lhe um cansaço, um sentimento de queda. 
É a música sem apoio em coisas, em espaço ou tempo, da mesma cor que a vida e a morte. Vida e morte em ideias, isoladas do prazer e da dor. Tão distantes das qualidades humanas que poderiam se confundir com o silêncio. O silêncio. O silêncio, porque essa música seria a necessária, a única possível, projeção vibrante da matéria. E do mesmo modo por que não se entende a matéria e não se a percebe até que os sentidos com ela se choquem, não se ouviria sua música.
...porque para sua fome quase toda a morfina seria pouca. E isto seria a degradação final, o vício. No entanto, por um caminho natural, se não buscasse um deus exterior terminaria por endeusar-se, por explorar sua própria dor, amando seu passado, buscando refúgio e calor em seus próprios pensamentos, então já nascidos com uma vontade de obra de arte e depois servindo de alimento velho nos períodos estéreis. Havia o perigo de se estabelecer no sofrimento e organizar-se dentro dele, o que seria um vício também e um calmante.
    O que fazer então? O que fazer para interromper aquele caminho, conceder-se um intervalo entre ela e ela mesma, para mais tarde poder reencontrar-se sem perigo, nova e pura?
    O que fazer?
    O piano foi atacado deliberadamente em escalas fortes e uniformes. Exercícios, pensou. Exercícios... Sim, descobriu divertida... Por que não? Por que não tentar amar? Por que não tentar viver?
Fechou os olhos, vagarosamente foi descansando. Quando os abriu recebeu um pequeno choque. E durante  longos e profundos segundos soube que aquele trecho de vida era uma mistura do que já vivera com o que ainda viveria, tudo fundido e eterno. Estranho, estranho. A luz alaranjada das 9 horas, aquela impressão de intervalo, um piano longínquo insistindo nas notas agudas, seu coração batendo apressado de encontro ao calor da manhã e, atrás de tudo, feroz, ameaçador, o silêncio late jando grosso e impalpável. Tudo desvaneceu-se. O piano interrompeu a insistência nas últimas notas e após um instante de repouso retomou docemente alguns sons do meio, em melodia nítida e fácil. E em breve ela não saberia dizer se a impressão da manhã fora verdadeira ou apenas uma ideia. Deteve-se atenta para reconhecê-la... Um súbito cansaço confundiu-a um instante. Os nervos abandonados, o rosto relaxado, sentiu uma leve onda de ternura por si mesma, de quase agradecimento, embora não soubesse por quê. Por um minuto pareceu-lhe que já vivera e que estava no fim. E logo em seguida, que tudo fora branco até agora, como um espaço vazio, e que ouvia longínqua e surdamente o fragor da vida se aproximando, densa, caudalosa e violenta, as ondas altas rasgando o céu, aproximando-se, aproximando-se... para submergi-la, para submergi-la, afogá-la asfixiando-a...
O amor que por ser perdida eu o perdi, mas que acredito não ser mais capaz. O amor que eu não sei se vai valer lutar para tê-lo mas a vontade é maior que a dúvida, só que a confusão da minha cabeça parece atrapalhar tudo, então eu já não sei o que quero, só sei que te quero perto. Mas até isso na minha cabeça se confunde e perturba por não ter certeza de nada.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Ah...


Born to Die

Feet, don’t fail me now
Take me to the finish line
Oh, my heart, it breaks every step that I take
But I’m hoping at the gates
They’ll tell me that you’re mine

Walking through the city streets
Is it by mistake or design?
I feel so alone on a Friday night
Can you make it feel like home
If I tell you you’re mine?
It’s like I told you, honey

Don’t make me sad, don’t make me cry
Sometimes love is not enough
And the road gets tough, I don’t know why
Keep making me laugh
Let’s go get high
The road is long, we carry on
Try to have fun in the meantime

Come and take a walk on the wild side
Let me kiss you hard in the pouring rain
You like your girls insane
Choose your last words
This is the last time
‘Cause you and I, we were born to die

Lost but now I am found
I can see but once I was blind
I was so confused as a little child
Tried to take what I could get
Scared that I couldn't find
All the answers, honey