sexta-feira, 30 de agosto de 2013

 - Você bem sabe que não se trata disso. Oh, Otávio, Otávio... - murmurou depois de um instante, as chamas subitamente reavivadas - que nos acontece afinal, o que nos acontece?
     A voz de Otávio era áspera e rápida quando ele respondeu:
 - Você sempre me deixou só.
 - Não... - assustou-se ela. - É que tudo que eu tenho não se pode dar. Nem tomar. Eu mesma posso morrer de sede diante de mim. A solidão está misturada à minha essência...
 - Não - repetiu ele, obstinado, os olhos turvos. - Você sempre me deixou só porque quis, porque quis.
 - Não tenho culpa - gritou Joana -, acredite... Está gravado em mim que a solidão vem de que cada corpo tem irremediavelmente seu próprio fim, está gravado em mim que o amor cessa na morte... Minha presença sempre foi essa marca...
Só uma sombra e ela recolheu-se a ela ouvindo a música da confusão murmurar em suas profundezas, impalpável, cega.
De novo Joana procurou voltar à sala, à presença de Otávio. Estava solta das coisas, de suas próprias coisas, por ela mesma criadas e vivas. Largassem-na no deserto, na solidão das geleiras, em qualquer ponto da Terra e conservaria as mesmas mãos brancas e caídas, o mesmo desligamento quase sereno. Tomar uma trouxa de roupa, ir embora devagar. Não fugir, mas ir. Isso, tão doce: não fugir, mas ir... Ou gritar alto, alto e reto e infinito, com os olhos fechados, calmos. Andar até encontrar as luzinhas vermelhas. Tão trêmulas como num começo ou num fim. Também ela estava a morrer ou a nascer? Não, não ir: ficar presa ao instante como um olhar absorto se prense ao vácuo, quieta, fixa no ar...
O que pensar naquele instante? Ela estava tão pura e livre que poderia escolher e não sabia. Enxergava alguma coisa, mas não conseguiria dizê-la ou pensá-la sequer, tão diluída achava-se a imagem na escuridão do seu corpo. Sentia-a apenas e olhava expectante pela janela como se olhasse seu próprio rosto na noite. Seria esse o máximo que atingiria? Aproximar-se, aproximar-se, quase tocar, mas sentir atrás de si a onda sugando-a em refluxo firme e suave, sorvendo-a, deixando-lhe após a assombrada e impalpável lembrança de uma alucinação... Mesmo naquele momento, percebendo a noite e seus próprios pensamentos indistintos, ela ainda restava separada deles, sempre um pequeno bloco fechado, assistindo, assistindo. A luzinha brilhando silenciosamente, afastada, solitária, inconquistada. Jamais se entregava.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Era uma mulher fraca em relação às coisas. Tudo lhe parecia às vezes preciso demais, impossível de ser tocado. E, às vezes, o que usavam como ar de respirar, era peso e morte para ela. Veja se compreende a minha heroína, titia, escute. Ela é vaga e audaciosa. Ela não ama, ela não é amada. Você terminaria notando-o como Lídia, outra mulher - uma jovem mulher cheia do próprio destino -, observou-o. No entanto, o que há dentro de Joana é alguma coisa mais forte que o amor que se dá e o que há dentro dela exige mais do que o amor que se recebe. Compreende, titia? Eu não a chamaria de herói como eu mesma prometera a papai. Pois nela havia um medo enorme. Um medo anterior a qualquer julgamento e compreensão. - Me ocorreu agora isso: quem sabe, talvez a crença na sobrevivência futura venha de se notar que a vida sempre nos deixa intocados.
Se pudesse colher e acrescentar o olhar que surpreendera em Lídia: ninguém te amará... Sim, terminar assim: apesar de ser das criaturas soltas e sozinhas no mundo, ninguém jamais pensou em das alguma coisa a Joana. Não amor, entregavam-lhe sempre outro sentimento qualquer. Viveu sua vida, ávida como uma virgem - isso para o túmulo. Fez-se muitas perguntas, mas nunca pôde se responder: parava para sentir. Como nasceu um triângulo? Antes em ideia? Ou esta veio depois depois de executada a forma? Um triângulo nasceria fatalmente? As coisas eram ricas. - Desejaria deter seu tempo na pergunta. Mas o amor a invadia. Triângulo, círculo, linhas retas...harmônico e misterioso como um arpejo. Onde se guarda a música enquanto não soa? - indagava-se. E rendida respondia: que façam harpa de meus nervos quando eu morrer.
Sua coragem desenvolvera-se dentro do quarto e à luz fechada, mundos luminosos se formavam sem medo e sem pudor. Ela aprendeu desde cedo a pensar e como não vira de perto nenhum ser humano senão a si mesma, deslumbrou-se, sofreu, viveu um orgulho doloroso, às vezes leve mas quase sempre difícil de se carregar.
Ele não sabia em instantes se vivia ou se estava morto, se tudo o que tinha era pouco ou demais. Quando ela falava, inventava doida, doida! A plenitude enchia-o tão grande como um vazio e sua angústia era a da limpidez do largo espaço acima das águas. Por que ficava estarrecido diante dela, estupefato como uma parede branca ao luar? Ou talvez fosse acordar de repente, gritar: quem é esta? Ela é demais na minha vida! Não posso... quero voltar... Mas ele não o poderia mais - sentia subitamente e assustava-se perdido.

Essa tristeza leve é a constatação de viver. Como não se sabe de que modo usar esse conhecimento súbito, vem a tristeza.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

     Um dia, rompendo a quietude em que ficava junto de Joana ele tentara falar:
 - Eu sempre não fui nada.
 - Sim, respondeu ela.
 - Mas tudo o que houve não faria você ir embora...
 - Não.
 - Mesmo essa mulher... essa casa... É diferente, você sabe?
 - Sei.
 - Sempre fui como um mendigo, eu sei. Mas nunca pedia nada, nem precisava, nem sabia. Você veio, sabe? Eu pensava antes: nada era ruim. Mas agora... Por que você me diz sempre coisas tão loucas, juro, não posso...

     Ela então se levantara sobre o cotovelo, subitamente séria, o rosto debruçado sobre ele:
 - Você acredita em mim?
 - Sim... - respondeu ele assustado com sua violência.
 - Você sabe que eu não minto, que nunca minto, mesmo quando... mesmo sempre? Sente? Diga, diga. O resto então não importaria, nada importaria... Quando digo essas coisas... essas coisas loucas, quando não quero saber de seu passado e não quero contar sobre mim, quando eu invento palavras... Quando eu minto você sente que eu não minto?
 - Sim, sim...

     Ela deixara-se cair de novo sobre a cama, os olhos fechados, cansada. Não importa, não importa se depois ele não acreditar, se correr de mim como o professor. Por enquanto junto dele podia pensar. E por enquanto também é tempo. Abriu os olhos, sorriu para ele. Um menino, é isso o que ele é. Deve ter tido muitas mulheres, muito amado, atraente, com os grandes cílios, os olhos frios. Até agora foi mais consistente, eu o dissolvi um pouco. Aquela mulher espera que eu vá embora um dia finalmente. Que ele volte.
Ele caminhava como quem sabe exatamente o lugar, esgueirando-se sem esforço entre a multidão. Quem fosse atrás dele chegaria. Quando ele se emocionava, quando se surpreendia, balançava a cabeça, assim, devagar, em não, como quem recebe mais do que esperou. Ele era lindo. E sobretudo estava vivo. E sobretudo eu o amava. Eu nascia, e meu coração era novo quando eu o via. Eu nascia, eu nascia, eu nascia. Agora um verso. O que eu quero, meu bem, é te ver sempre, meu bem. Como te vi hoje, meu bem. Mesmo que morreres, meu bem. Outro: Ouvi um dia uma flor cantando e tranquilamente me alegrei; depois me aproximei e, milagre, não era a flor que cantava mas um passarinho sobre a flor.

domingo, 25 de agosto de 2013

Escorregara muito fundo dentro de si, pairava na penumbra de sua própria floresta insuspeita. Movia-se agora de leve e seus gestos eram fáceis e novos. As pupilas escurecidas e alargadas, de súbito um animal fino, assustado como uma corça. No entanto, a atmosfera tornara-se tão lúcida que ele perceberia qualquer movimento de coisa viva ao seu redor. E seu corpo era apenas memória fresca, onde se moldariam como pela primeira vez as sensações.
Com a subitaneidade de uma punhalada, a dor estalou dentro de seu corpo, iluminou-o de alegria e perplexidade.
Fechou os olhos mais intensamente, mordeu os lábios, sofrendo sem saber por quê. Abriu-os em seguida e no quarto - o quarto vazio! - subitamente não descobriu a marca da passagem de Joana. Como se fosse mentira a sua existência... Ergueu-se. Vem, gritou qualquer coisa nele ardente e mortal. Vem, repetiu baixinho, cheio de temor, o olhar perdido. Vem...
Cada vez mais ele necessitava de menos para viver: pensava menos, comia menos, dormia quase nada. Ela era sempre. E viria daqui a pouco.
Ela não era bonita, pelo menos desde homem nunca sonhara com aquela criatura, nunca a esperara. Talvez por isso a tivesse seguido tantas vezes na rua, mesmo sem aguardar seu olhar, talvez... Não sabia, gostara sempre de vê-la. Não era bonita. Ou era? Como saber? Tão difícil descobrir como se nunca tivesse visto, como se não tivesse abraçado tantas vezes.
De novo esperava um fim, o fim que jamais vinha completar seus momentos. Que descesse sobre ela algo inevitável, queria ceder, submeter-se. Às vezes seus passos erravam na direção, pesavam-lhe, as pernas mal se moviam. Mas ela se empurrava, guardava-se para cair mais longe. Olhava para o chão, as ervas louras que renasciam humildemente após cada esmagamento.
Um começo de tempestade calmara e o ar fresco circulava docemente. Subiu de novo o morro e seu coração ainda batia sem ritmo. Procurava a paz daqueles caminhos àquela hora, entre a tarde e a noite, uma cigarra invisível sussurrando o mesmo canto. Os velhos muros úmidos em ruína, invadidos de heras e trepadeiras sensíveis ao vento. Parou e sem os seus passos ouvia o silêncio mover-se. Só seu corpo perturbava aquela serenidade. Imaginava-a sem sua presença e adivinhara a frescura que deveriam ter aquelas coisas mortas misturadas às outras, fragilmente vivas como no início da criação.
     Entre um instante e outro, entre o passado e o futuro, a vaguidão branca do intervalo. Vazio como a distância de um minuto a outro no círculo do relógio. O fundo dos acontecimentos erguendo-se calado e morto, um pouco da eternidade.
     Apenas um segundo quieto talvez separando um trecho da vida ao seguinte. Nem um segundo, não pôde contá-lo em tempo, porém longo como um linha reta infinita. Profundo, vindo de longe, - um pássaro negro, um ponto crescendo do horizonte, aproximando-se da consciência como uma bola arremessada do fim para o princípio. E explodindo diante dos olhos perplexos em essência de silêncio. Deixando depois de si o intervalo perfeito como um único som vibrando no ar. Renascer depois, guardar a memória estranha do intervalo, sem saber como misturá-lo à vida. Carregar para sempre o pequeno ponto vazio - deslumbrado e virgem, demasiado fugaz para se deixar desvendar.
Ninguém precisava mais mentir, uma vez que eu já sabia tudo! Também agora me precipitarei em outro estado. Por quê? Por quê? Vou embora daqui, vou para casa, de um instante para outro o rasgão no vestido, ouvir o grito lancinante da orquestra e subitamente o silêncio, todos os músicos caídos mortos sobre o estrado, no grande salão zangado e vazio. Olhar de frente para o rasgão, mas sempre tive medo de rebentar de sofrimento, como o grito da orquestra. Ninguém sabe até que ponto posso chegar quase em triunfo como se fosse uma criação: é uma sensação de poder extra-humano conseguida em certo grau de sofrimento. Porém um minuto a mais e a gente não sabe se é de poder ou de absoluta impotência, assim como querer com o corpo e o cérebro movimentar um dedo e simplesmente não consegui-lo. Não é simplesmente não consegui-lo: mas todas as coisas rindo e chorando ao mesmo tempo. Não, seguramente não inventei esta situação, e é isso o que mais me surpreende. Porque minha vontade de experiência não chegaria a provocar esse ferro frio encostando na carne morna, finalmente morna da ternura de ontem. Oh, não se fazer de mártir: você sabe que não continuaria no mesmo estado por muito tempo: de novo abriria e fecharia círculos de vida, jogando-os de lado, murchos... Também aquele momento passaria [...]
- Isso não é mais do que amor?
- Pode ser, disse Joana surpresa. O que importa é que já não é amor. - E de repente eis que vem o cansaço, o grande "para quê'' me envolvendo, e eu sei que vou dizer alguma coisa.
Eu sei o que quero: uma mulher feia e limpa, com seios grandes, que me diga: que história é essa de inventar coisas? Nada de dramas, venha cá imediatamente! - E me dê um banho morno, me vista uma camisola branca de linho, trance meus cabelos e me meta na cama, bem zangada, dizendo: o que então? Fica aí solta, comendo fora de hora, capaz de pegar uma doença, deixe de inventar tragédias, pensa que é grande coisa na vida, tome essa xícara de caldo quente. Me levanta a cabeça com a mão, me cobre com um lençol grande, afasta alguns fios de cabelo da minha testa, já branca e fresca, e me diz antes de eu adormecer mornamente: vai ver como em pouco tempo engorda esse rosto, esquece as maluquices e fica uma boa menina. Alguém que me recolha como a um cão humilde, que me abra a porta, me escove, me alimente, me queira severamente como a um cão, só isso eu quero, como a um cão, a um filho.
Joana alisou os cabelos vagamente, a lâmina fria encostada ao coração quente, sorriu de novo, oh só para ganhar tempo. Mas sim, por que não continuar com Lídia? - respondeu à tia morta. A lâmina agora, a esse pensamento claro, oprimiu-lhe rindo os pulmões, gelada. Por que recusar acontecimentos? Ter muito ao mesmo tempo, sentir de várias maneiras, reconhecer a vida em diversas fontes... Quem poderia impedir a alguém viver largamente? 

sábado, 24 de agosto de 2013

Estava mais escuro, ela não o via senão como uma sombra. Ele se apagava cada vez mais, escorregava-lhe por entre as mãos, morto no fundo do sono. E ela, solitária como o tic-tac de um relógio numa casa vazia. Esperava sentada sobre a cama, os olhos engrandecidos, o frio da madrugada próxima atravessando-lhe a camisa fina. Sozinha no fundo, esmagada pelo excesso de vida, sentindo a música vibrar alta demais para um corpo.
Silenciou de novo olhando para dentro de si. Lembrou-se: sou a onda leve que não tem outro campo senão o mar, me debato, deslizo, voo, rindo, dando, dormindo, mas ai de mim, sempre em mim, sempre em mim. De quando era aquilo? Lido em criança? Pensado? De súbito recordou-se: ainda agora pensara-o, talvez antes de encostar o braço no de Otávio, talvez naquele momento em que tivera vontade de gritar... Cada vez mais tudo era passado... E o passado tão misterioso como o futuro...
Agora subitamente compreendia que o amor podia fazer com que se desejasse o momento que vem num impulso que era a vida... - Sentia o mundo palpitar docemente em seu peito, doía-lhe o corpo como se nele suportasse a feminilidade de todas as mulheres.

Devaneios sobre o tempo (Gabriel Magalhães)

Não há tempo para se medir todas as coisas.
O tempo de uma paixão nada diz de sua intensidade,
nem de sua capacidade inesgotável de ser.
O tempo do relógio, a medir o imensurável,
o olhar pra trás a emoldurar o ontem
de um tempo que se fez finito,
é o fóssil na memória.

De nós dirá o tempo, o que fomos?
Imagino-o amanhã, e o depois do amanhã,
e o depois do depois do amanhã!
Sua infinitude e indefinição
revelam-no indefectível
tanto quanto intangível
a nós, um pouco do quanto do tempo
que o tempo nos reserva
das horas vãs.
Um minuto descompassa o pensamento,
um orgasmo a impingir-lhe paixões,
e a paixão pode ter o tempo de um amanhecer,
e o cotidiano que se arrasta pelo dia
contrapõe o novo que se esvai em ventos errantes.

Os poetas (Elisa Elderani)

Seres que vagam pelo mundo
espalhando sonhos,
procurando ser ou não ser...
Vivos.
Preenchem os olhos de pranto,
os corações de esperanças.
Ignoram por onde as palavras
sussurradas pelos ventos da fantasia,
pousarão as sementes.

Terra fértil, ou almas desertas.
Espaço infinito sem medir o tempo,
aguardam, persistem, insistem,
nesse mundo vazio
sem sentido.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Mutações (Eda Maria Reis)

A vida em verso e reverso,
olhada de qualquer jeito,
na dicotomia do universo
nada é perfeito ou imperfeito.

É um ser diferente que passa
com seu caráter individual,
traços diferentes traça,
afinal, cada um é desigual.

Pessoas maravilhosas
que escrevem nas nossas vidas, 
sempre boas e generosas
sua vitória garantida.

Cresce um povo heterogêneo,
cada um se modelando
de simples a herói ou gênio,
escolhe como vai caminhando.

E hoje faz a diferença,
quem é firme, correto, capaz,
vence pela justiça inerente
quem de nenhuma situação desfaz.


Esse nosso Amor (Daniela Consoni Balbo)

Amo-te!
Amo-te no silêncio perdido da canção fúnebre.
Amo-te no escuro que torna cega a luz do sol.
Amo-te no sangue do último poema assassinado.
Amo-te no pranto, no frito rouco, amordaçado.

Amo-te!
Amo-te sozinha quando muitos te esqueceram.
Amo-te no desvio em que tantos se perderam.
Amo-te lutando quando muitos fracassaram.
Amo-te com vida, quando tantos sentimentos de castram.

Amo-te!
Amo-te no hoje que se esqueceu de acontecer.
Amo-te no tempo que me guia ao envelhecimento.
Amo-te até mesmo quando por poucos é lembrado.

Amo-te... pra sempre!

Sol temporão (Adriano Pelá)

Lua surgindo como sol temporão,
nas águas calmas do rio,
com seu intenso e vermelho clarão,
refletindo o rei, em tempo tardio.

E eu, incauto distraído, ao vê-la, deslumbrado, acreditei.
Sua luz, um banho de energia, alegria, amor e harmonia!

Lua como sol noturno
iluminando o horizonte, 
trazendo ao coração soturno,
novo alento, novo norte.

Transforma as sombras,
em cristais luminosos, móveis...
Luzes acesas no leito das águas,
onde, agora atento, renovado de emoções,
aspiro essas alvas radiações.


Acalma-te! (Gabriel Magalhães)

A vida é mais prática e mundana
do que o espectro romântico que criaste para ti.
Aplaca-te!
As pessoas de carne e osso sofrem tanto, ou menos,
do que os personagens de teu filme.
Sossega-te!
As músicas que permeiam as peças teatrais
não soam, imaculadamente, por sobre nossas cabeças.
Veja:
O cotidiano te apraz,
e estamos submersos em ideais e sonhos
quando percorremos os caminhos
já velhos conhecidos de nossos pés.
Nota:
A guinada por que tanto almejas
já não depende tanto de ti.
Repara que em teus sonhos és muito mais frágil
do que na vida real
onde o corpo se sustenta.

Fim de noite (Dante Marcucci)

Que seja então assim o fim
Da nossa noite...
O vinho embriagando
Nosso vício...

As tuas roupas desleixadas
Sem juízo...
O escuro só a encobrir
Nossos pecados...

Que seja assim, então
A nossa noite...
Uma loucura começando,
Da nossa orgia apenas o inicio...

As nossas mãos desesperadas
Procurando o improviso...
Os nossos lábios, sem pedir, 
Sendo beijados...

Que seja então sem fim
A nossa noite...
O teu fogo e o meu vigor
Incendiando a nossa pressa...

Os lençóis de cetim
E as nossas peles...
Uma interminável noite de amor
Que só começa...


Brinde (Dante Marcucci)

Hei de beber-te nesta noite!
O vinho doce que tua mão
Oferta...
O gosto da tua boca impura.

Hei de beber o teu sal,

E cada uma das tuas
Palavras quentes...

Vou brindar ao teu pecado,
À tua ousadia,
Ao prazer que me ofereces...

Hei de beber da tua taça!

Sorver o mel do teu corpo, 
Embriagar-me da tua voz,
Sentir nos lábios teu sabor...

Hei de te amar sedento,
De vinho
E do teu amor!

Recuperação (Daniela Consoni Balbo)

Rodo em círculos,
rodopio em redemoinhos,
saio e volto pro mesmo lugar.
Quem me dera o néctar provar,
mas é de fel o meu paladar.

Ando em meio a angústias e restos,
restos esses que meu paladar
segue em frente sem nada esperar.

Nem mesmo o tato,
nem mesmo o olhar,
nem mesmo o olfato me faz chegar
onde tenho que estar.

Em meio ao medo,
em meio ao desespero,
ao passado me remeto.

Presente se fez do passado,
Presente que o futuro aguarda.

Socorro peço...

Agora sim!

Me ergo!
Não me perco.
Agora sim!
Paladar de mel,
olfato de mel,
olfato que é só meu!
Olho pro céu...
Agora rodo,
você ao ponto do meu encontro.
Reergui!
Ressurgi das cinzas, resisti!
Sou um só ser de grande beleza,
sem culpa nem dó.
Sou quem sou!
Sou a luz do meu sol!

À espera... (Dante Marcucci)


Que teu corpo anseie, 
Teu ventre queime de amor!
E te ofereças,
Sem nenhum pudor...

Ah... e que tenhas saudade!
Não te aquietes
Sem a minha carne...
Não escondas tua umidade!

Que tua boca implore
E peça versos desbocados...
E suja,
Me conte os teus pecados!

E não aguentes mais essa fome, 
Esse bem que te atormenta...
E bem louca,
Gemas o meu nome...

Mas que estejas assim:
À minha espera...
E nua,
Tenhas pressa de mim!