quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Mas das profundezas como resposta, sim como resposta, avivada pelo ar que ainda penetrava no seu corpo, ergueu-se a chama queimando lúcida e pura... Das profundezas sombrias o impulso inclemente ardendo, a vida de novo se levantando informe, audaz, miserável. Um soluço seco como se a tivessem sacudido, alegria rutilando em seu peito intensa, insuportável, oh o turbilhão. Sobretudo aclarava-se aquele movimento constante no fundo do seu ser – agora crescia e vibrava. Aquele movimento de alguma coisa viva procurando libertar-se da água e respirar. Também como voar, sim como voar... Andar na praia e receber o vento no rosto, os cabelos esvoaçantes, a glória sobre a montanha... Erguendo-se, erguendo-se, o corpo abrindo-se para o ar, entregando-se à palpitação cega do próprio sangue, notas cristalinas, cintilantes, faiscando na sua alma... Não havia desencanto ainda diante de seus próprios mistérios. 
Agora os pensamentos já se solidificavam e ela respirava como um doente que tivesse passado pelo grande perigo. Alguma coisa ainda balbuciava dentro dela, porém seu cansaço era grande, tranquilizava seu rosto em máscara lisa e de olhos vazios. Das profundezas a entrega final. O fim...
[...] eu não sou nada e a desgraça cai sobre minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras são mentirosas e eu continuo a sofrer, afinal o fio sobre a parede escura. [...] eu não sou nada, eu sou menos que o pó e eu te espero todos os dias e todas as noites, ajudai-me, eu só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meus dedos e encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso fazer e apenas assisto ao meu esgotamento em cada minuto que passa, sou só no mundo, quem me quer não me conhece, quem me conhece me teme e eu sou pequena e pobre, não saberei se existirei daqui a poucos anos, o que me resta para viver é pouco e o que me resta para viver no entanto continuará intocado e inútil. Por que não te apiedas de mim? [...] minha desolação é funda como um poço e eu não me engano diante de mim e das pessoas, vinde a mim na desgraça e a desgraça é hoje, a desgraça é sempre. [...] meu desespero é seco como as areias do deserto e minha perplexidade me sufoca, humilha-me. Deus, esse orgulho de viver me amordaça, eu não sou nada...
Sobrevivera como um germe ainda úmido entre as rochas ardentes e secas, pensava Joana. Naquela tarde já velha – um círculo de vida fechado, trabalho findo -, naquela tarde em que recebera o bilhete do homem, escolhera um novo caminho. Não fugir, mas ir. Usar o dinheiro intocado do pai, a herança até agora abandonada, e andar, andar, ser humilde, sofrer, abalar-se na base, sem esperanças. Sobretudo sem esperanças. 
Fechou os olhos, docemente serena e cansada, envolvida em longos véus cinzentos. Um momento ainda sentiu a ameaça de incompreensão nascendo no interior longínquo do corpo como um fluxo de sangue. Eternidade é o não ser, a morte é a imortalidade - boiavam ainda, soltos restos de tormenta. E ela não sabia mais a que ligá-los, tão cansada.
Já sem se prender a raciocínios, pareceu-lhe tão ilógico morrer, que se deteve agora estupefata, cheia de terror. Eterna? Violenta... Reflexões rapidíssimas e brilhantes como faíscas que se entrecruzavam eletricamente, fundindo-se mais em sensações do que pensamentos. Mudava sem transição, em saltos leves, de plano a plano, cada vez mais altos, claros e tensos. E de instante a instante caía mais fundo dentro de si própria, em cavernas de luz leitosa, a respiração vibrante, cheia de medo e felicidade pela jornada, talvez como as quedas quando se dorme. A intuição de que eram frágeis aqueles momentos fazia-a mover-se de leve com receio de se tocar, de agitar e dissolver aquele milagre, o tenro ser de luz e de ar que tentava viver dentro dela.
Não morrer. Por que... na verdade onde estava a morte dentro dela? - indagou-se devagar, com astúcia. Dilatou os olhos, ainda não acreditando na pergunta tão nova e cheia de deslumbramento que se permitira inventar. Caminhou até o espelho, olhou-se - ainda viva! O pescoço claro nascendo dos ombros delicados, ainda viva! - procurando-se. Não, ouça! Ouça! Não existia o começo da morte dentro de si! E como atravessasse o próprio corpo violentamente, em busca, sentiu levantar-se de seu interior uma aragem de saúde, todo ele abrindo-se para respirar...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Mas as palavras sobrenadavam no seu mar, indissolúvel, duras. Antes era o mar puro. E apenas restava do passado, correndo dentro dela, ligeira e trêmula, um pouco da antiga água, entre cascalhos, sombria, fresca sob as árvores, as folhas mortas e castanhas forrando as margens. Deus, como ela afundava docemente na incompreensão de si própria. E como podia, muito mais ainda, abandonar-se ao refluxo firme e macio. E voltar. Haveria de reunir-se a si mesma um dia, sem as palavras duras e solitárias... Haveria de se fundir e ser de novo o mar mudo brusco forte largo imóvel cego vivo. A morte a ligaria à infância.
Agora ele gritava histérico sem se dominar. Víbora. Cada grito, mal se libertava da fonte convulsa, vibrava quase alegre no ar. Ela o observava a bater os punhos sobre a mesa enlouquecido, chorando de ira. Quanto tempo? Porque Joana tinha consciência, como de uma música longínqua, de que tudo continuava a existir e os gritos não eram setas isoladas, mas fundiam-se no que existia. Até que subitamente exausto e vazio ele sentou-se numa cadeira, devagar. O rosto flácido, os olhos mortos, pôs-se a fitar um ponto no chão.
Os dois mergulharam em silêncio solitário e calmo.
Nenhum músculo do rosto de Otávio se moveu, seus olhos não pestanejaram. Mas todo ele se condensou e sua palidez brilhou como uma vela acesa. Joana continuava a falar vagarosamente, mas ele não ouviu porque aos poucos, quase sem pensamentos, a cólera veio-lhe subindo do coração pesado, ensurdeceu-lhe os ouvidos, enublou-lhe os olhos. O que..., debatia-se a raiva trôpega e arquejante, então ela sabia sobre Lídia, sobre o filho... sabia e silenciava... Ela me enganava... - A carga asfixiante cada vez pesava mais fundo dentro dele. - Admita minha infâmia serenamente... continuava a dormir junto de mim, a me suportar... desde quando? Por quê? Mas, santo Deus, por quê?...
      - Infame.

domingo, 6 de outubro de 2013

E depois de um momento de dor, como se abandonasse a si próprio, os olhos fulgurando de cansaço, ele sentiu a impotência de desejar mais alguma coisa para o futuro. Perplexo, assistia afinal a sua purificação violenta e estranha, como se entrasse lentamente num mundo inorgânico.
Mas viu também, com estranha e súbita clareza, a si mesmo numa tarde talvez, sentindo no peito uma dor fina, franzindo os olhos, sabendo as mãos vazias sem olhá-las. A indefinível sensação de perda quando Joana o deixasse...  Ela surgiria nele, não na sua cabeça como uma lembrança comum, mas no centro de seu corpo, vaga e lúcida, interrompendo sua vida como o badalar súbito de um sino. Ele sofreria como se estivesse mentindo coisas loucas, mas como se não pudesse expulsar a alucinação e a aspirasse casa vez mais como a um ar que no interior do corpo pudesse benditamente se transformar em água. Sentiria o espaço aberto e límpido no seu coração, onde nenhuma das sementes de Joana pudera cobrir de floresta, porque ela era impossuída como o pensamento futuro. No entanto ela era dele, sim, profundamente, difusamente como uma música ouvida. Minha, minha, não partas! - implorou do fundo do seu ser.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Ela iria embora, ele sabia... Mas que importava?, ele não precisava de Joana. Não, ''não precisava'', mas ''não podia''. E de repente não entendeu mesmo como vivera ao seu lado por tanto tempo e parecia-lhe que depois de sua partida ele simplesmente teria que unir o presente àquele passado longínquo.  
A angústia terminava apertando seu coração, porque se ele quisesse tocá-la não poderia, havia um círculo intransponível e impalpável ao redor daquela criatura, isolando-a.