sexta-feira, 12 de julho de 2013

Fechou os olhos, vagarosamente foi descansando. Quando os abriu recebeu um pequeno choque. E durante  longos e profundos segundos soube que aquele trecho de vida era uma mistura do que já vivera com o que ainda viveria, tudo fundido e eterno. Estranho, estranho. A luz alaranjada das 9 horas, aquela impressão de intervalo, um piano longínquo insistindo nas notas agudas, seu coração batendo apressado de encontro ao calor da manhã e, atrás de tudo, feroz, ameaçador, o silêncio late jando grosso e impalpável. Tudo desvaneceu-se. O piano interrompeu a insistência nas últimas notas e após um instante de repouso retomou docemente alguns sons do meio, em melodia nítida e fácil. E em breve ela não saberia dizer se a impressão da manhã fora verdadeira ou apenas uma ideia. Deteve-se atenta para reconhecê-la... Um súbito cansaço confundiu-a um instante. Os nervos abandonados, o rosto relaxado, sentiu uma leve onda de ternura por si mesma, de quase agradecimento, embora não soubesse por quê. Por um minuto pareceu-lhe que já vivera e que estava no fim. E logo em seguida, que tudo fora branco até agora, como um espaço vazio, e que ouvia longínqua e surdamente o fragor da vida se aproximando, densa, caudalosa e violenta, as ondas altas rasgando o céu, aproximando-se, aproximando-se... para submergi-la, para submergi-la, afogá-la asfixiando-a...

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