terça-feira, 30 de julho de 2013

Então nasceu-lhe uma ideia. Uma ideia tão quente que o coração acompanhou-a com pancadas fortes. Assim: aproximou-se dele, aninhou com cuidado a cabeça no seu braço, junto de seu peito. Ficou parada, à espera. Aos poucos sentiu o calor do estranho transmitindo-se a ela mesma pela nuca. Ouviu o bater ritmado, longínquo e sério de um coração. Perscrutou-se atenta. Aquele ser vivo era seu. Aquele desconhecido, aquele outro mundo era seu. Via-o de longe, do alto da lâmpada, o corpo nu - perdido e fraco. Fraco. Como eram frágeis e delicadas suas linhas descobertas, sem proteção. Ele, ele, o homem. De uma fonte oculta veio-lhe subindo pelo corpo a angústia, enchendo-lhe todas as células, empurrando-a desamparada para o fundo da cama. Meu Deus, meu Deus. Depois, num parto doloroso, sob a respiração difícil, sentiu o óleo macio da renúncia derramar-se dentro de si, enfim, enfim. Ele era seu.

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