''Ás vezes bate uma vontade de fugir, de correr, de sair da realidade. E entrar em um lugar, ir para um mundo longe de toda essa falsidade, de todas essa mentiras, de todas as aflições, distância dessas mágoas, desses rancores, dessa hipocrisia. Só paz, música e calmaria.''
terça-feira, 23 de julho de 2013
De tal modo a imaginação é a base do homem, que todo o mundo que ele tem construído encontra sua justificativa na beleza da criação e não na sua utilidade, não em ser o resultado de um plano de fins adequados às necessidades. Por isso é que vemos multiplicarem-se os remédios destinados a unir o homem às ideias e instituições existentes - a educação, por exemplo, tão difícil - e vemos-lo continuar sempre fora do mundo que ele construiu. O homem levanta casas para olhar e não para nelas morar. Porque tudo segue o caminho da inspiração. O determinismo não é um determinismo de fins, mas um estreito determinismo de causas. Brincar, inventar, seguir a formiga até seu formigueiro, misturar água com cal para ver o resultado, eis o que se faz quando se é pequeno e quando se é grande. É erro considerar que chegamos a um alto grau de pragmatismo e materialismo. Na verdade o pragmatismo - o plano orientado para um dado fim real - seria a compreensão, a estabilidade, a felicidade, a maior vitória de adaptação que o homem conseguisse. No entanto, fazer as coisas ''para quê'' parece-me, perante a realidade, uma perfeição impossível de se exigir do homem. O início de toda sua construção é ''porquê''. A curiosidade, o devaneio, a imaginação - eis o que formou o mundo moderno. Seguindo a inspiração, misturou ingredientes, criou combinações. Sua tragédia: ter que se alimentar com elas. Confiou em que pudesse imaginar numa vida e encontrar-se noutra, aparte. De fato essa outra continua, mas sua purificação sobre o imaginado age lentamente e um homem sozinho não encontra o pensamento tonto de um lado e a paz da vida verdadeira noutro. Não se pode pensar impunemente.
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