Olhava-o sem prestar atenção às suas palavras. Era doce e bom saber que entre ambos havia segredos tecendo uma vida fina e leve sobre a outra vida, a real. Ninguém adivinharia jamais que Otávio a beijara nas pálpebras uma vez, que ele sentira nos lábios os seus cílios e que sorrira por isso. E milagrosamente ela compreendera tudo sem que falassem. Ninguém saberia que um dia tinham se querido tanto que haviam permanecido mudos, sérios, parados. Dentro de cada um deles acumulavam-se conhecimentos nunca devassados por estranhos. Ele fora embora um dia. Mas não importava tanto. Ela sabia que entre os dois havia ''segredos'', que ambos eram irremediavelmente cúmplices. Se fosse embora, se amasse outra mulher, iria embora e amaria outra mulher para participar-lhe depois, mesmo que nada lhe contasse. Lídia tomaria parte na sua vida de qualquer modo. Certas coisas não acontecem sem consequência, pensava olhando-o. Que se fuja - e nunca se estará livre... Uma vez ia caindo, ele amparou-a, endireitou seu cabelo num gesto distraído. Ela agradeceu-lhe com uma ligeira pressão no braço. Olharam-se com um sorriso e de repente sentiram-se ofuscantemente felizes... Puseram-se a andar mais depressa, os olhos abertos deslumbrados.
Talvez ele não se lembrasse disso particularmente. Ela é quem tinha a memória para aquelas coisas. Verdade é que a qualidade desses acontecimentos era tal, que não se podia rememorá-los falando. Nem mesmo pensando com palavras. Só parando um instante e sentindo de novo. Que ele esquecesse. Na sua alma, porém, restaria certamente qualquer marca, clara, cor-de-rosa, anotando a sensação e aquela tarde. Quanto a ela - cada dia que chagava trazia-lhe nas suas águas mais lembranças de que se alimentar. E aos poucos uma certeza de felicidade, de fim alcançado, subia-lhe vagarosa pelo corpo, deixando-a satisfeita, quase saciada, quase angustiada.
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